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Dor Suboccipital: Como os Músculos Suboccipitais Atuam como Sensores Neuroendócrinos da Dor Cervical e da Cefaleia

Dor Suboccipital: Como os Músculos Suboccipitais Atuam como Sensores Neuroendócrinos da Dor Cervical e da Cefaleia

dor suboccipital

Resumo

A dor suboccipital é uma condição frequentemente associada à dor cervical crônica, cefaleia cervicogênica e enxaqueca, sendo tradicionalmente atribuída a fatores posturais ou mecânicos. No entanto, evidências científicas recentes indicam que os músculos suboccipitais exercem um papel muito mais complexo, atuando como sensores neuroendócrinos ativos. Esses músculos apresentam rica inervação sensorial, conexão direta com as meninges por meio do complexo mio-dural e convergência aferente com o complexo trigeminocervical. Além disso, expressam receptores hormonais e quimiossensíveis capazes de integrar sinais metabólicos, inflamatórios e hormonais, modulando o tônus muscular e a nocicepção crânio-cervical. Este artigo revisa a literatura científica que fundamenta o papel dos músculos suboccipitais na fisiopatologia da dor suboccipital e da dor cérvico-craniana.


1. Introdução: por que a dor suboccipital não é apenas mecânica

A dor suboccipital representa uma das queixas mais comuns em consultórios de fisioterapia, neurologia e reabilitação, frequentemente associada a rigidez cervical, cefaleias recorrentes e sensação de pressão craniana. Durante décadas, sua origem foi atribuída predominantemente a alterações biomecânicas locais, como encurtamentos musculares, disfunções posturais ou sobrecarga cervical.

Entretanto, abordagens contemporâneas em neurociência da dor demonstram que tecidos periféricos profundos, especialmente na transição crânio-cervical, desempenham papel ativo na gênese e manutenção da dor. Nesse contexto, os músculos suboccipitaisrectus capitis posterior major, rectus capitis posterior minor, obliquus capitis superior e obliquus capitis inferior — emergem como estruturas centrais na integração entre sistemas musculoesquelético, nervoso e endócrino.


2. Anatomia funcional dos músculos suboccipitais e sua relação com a dor cervical

Os músculos suboccipitais são caracterizados por:

  • Alta densidade de fusos musculares

  • Função postural tônica contínua

  • Controle fino da posição da cabeça

Estudos anatômicos demonstram que esses músculos mantêm conexões diretas ou indiretas com a dura-máter espinhal por meio do complexo suboccipital neuro-dural. Essa interface permite que alterações no tônus suboccipital influenciem diretamente a tensão meníngea, impactando aferências nociceptivas transmitidas ao sistema nervoso central.

Lackovic et al. (2021) demonstraram que a inervação dessa região converge para o complexo trigeminocervical, estrutura-chave no processamento da dor cefálica. Essa convergência explica por que disfunções suboccipitais podem gerar dor referida para regiões frontais, temporais e orbitárias, configurando quadros típicos de cefaleia cervicogênica e dor suboccipital persistente.


3. Receptores hormonais e quimiossensibilidade nos músculos suboccipitais

O músculo esquelético é atualmente reconhecido como um tecido metabolicamente ativo e sensível a sinais endócrinos. Receptores para cortisol, catecolaminas, hormônios tireoidianos, estrógenos e testosterona foram identificados não apenas nas fibras musculares, mas também em fibroblastos, células satélite e mitocôndrias.

Nos músculos suboccipitais, essa quimiossensibilidade possui implicações clínicas relevantes. Por exercerem função postural contínua e manterem íntima relação com estruturas nociceptivas centrais, esses músculos tornam-se particularmente suscetíveis à influência de alterações hormonais sistêmicas, favorecendo o surgimento ou a manutenção da dor suboccipital.


3.1 Hormônios tireoidianos (T3 e T4) e metabolismo suboccipital

Os hormônios tireoidianos (T3 e T4) atuam por meio de receptores nucleares e mitocondriais, modulando diretamente:

  • Metabolismo basal

  • Produção de ATP

  • Excitabilidade neuromuscular

D’Antona et al. (2020) demonstraram que alterações na sinalização tireoidiana impactam a função mitocondrial muscular, influenciando fadiga, rigidez e sensibilidade dolorosa. Em pacientes com disfunções tireoidianas, observa-se maior rigidez cervical e maior prevalência de dor suboccipital e cefaleias cervicogênicas.


4. Cortisol, estresse e rigidez muscular suboccipital

O cortisol, principal hormônio do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), exerce efeitos profundos sobre o tecido muscular. Em condições de estresse crônico, o cortisol está associado a:

  • Aumento do tônus muscular basal

  • Estímulo à fibrose tecidual

  • Sensibilização de receptores inflamatórios

Bennett & Shepherd (2022) demonstraram que o aumento de aferências nociceptivas periféricas sob estresse amplifica a excitabilidade do complexo trigeminal. Nos músculos suboccipitais, esse fenômeno contribui para estados persistentes de tensão e dor suboccipital crônica, frequentemente refratária a abordagens puramente mecânicas.

Sha et al. (2022) reforçam que a ativação prolongada do eixo HHA está intimamente ligada à cronificação das cefaleias, sobretudo quando associada a alterações musculares periféricas profundas.


5. Estrógenos, testosterona e dimorfismo sexual da dor suboccipital

A prevalência da dor suboccipital e das cefaleias é significativamente maior em mulheres, especialmente em fases de flutuação hormonal. Os estrógenos modulam a excitabilidade neuronal e a sensibilidade nociceptiva, aumentando a resposta inflamatória e a percepção da dor durante períodos como a fase pré-menstrual e a perimenopausa.

Van Poppel et al. (2023) demonstraram que variações nos níveis de estrógeno influenciam diretamente o processamento central da dor. Em contraste, a testosterona exerce efeitos neuroprotetores e moduladores da nocicepção. Kjaergaard et al. (2019) evidenciaram que níveis reduzidos de testosterona estão associados a maior sensibilidade ao estresse e à dor, o que contribui para explicar a maior intensidade da dor suboccipital em mulheres.


6. Integração neuroendócrina e nociceptiva na dor suboccipital

A soma das evidências demonstra que os músculos suboccipitais funcionam como estruturas integradoras, capazes de traduzir sinais hormonais, metabólicos e inflamatórios em respostas mecânicas e nociceptivas. Eles não apenas reagem ao movimento, mas também refletem o estado interno do organismo.

Bartsch & Goadsby (2003) já haviam proposto que a periferia cervical exerce papel ativo na modulação da dor cefálica. Estudos subsequentes confirmam que a musculatura suboccipital representa um elo funcional entre os sistemas endócrino, musculoesquelético e nervoso central, sendo peça-chave na fisiopatologia da dor suboccipital.


7. Considerações finais

A dor suboccipital deve ser compreendida como um fenômeno multifatorial, que transcende explicações puramente mecânicas. Os músculos suboccipitais atuam como sensores neuroendócrinos altamente especializados, integrando sinais hormonais, metabólicos e neurossensoriais capazes de modular o tônus muscular e a nocicepção crânio-cervical.

Essa compreensão amplia o entendimento clássico da dor cervical e das cefaleias associadas, fornecendo base científica sólida para abordagens clínicas mais integrativas e eficazes.


Referências

Bartsch T., Goadsby P.J. (2003). The trigeminocervical complex and migraine: current concepts and synthesis. Current Pain and Headache Reports, 7(5), 371–376. https://doi.org/10.1007/s11916-003-0036-y

Goadsby P.J., Holland P.R. (2017). Importance of central mechanisms in headache generation. Seminars in Neurology, 37(6), 611–620. https://doi.org/10.1055/s-0037-1609217

Kjaergaard M. et al. (2019). Testosterone and stress – relationship and mechanisms. Stress, 22(6), 674–685. https://doi.org/10.1080/10253890.2019.1634885

D’Antona A.M. et al. (2020). Thyroid hormone signaling in mitochondria: metabolic regulation and cellular effects. The FASEB Journal, 34(3), 3723–3737.

Lackovic N., Papagiannopoulos A., Smith A.J. (2021). Morphology and innervation of the suboccipital neuro-dural complex. Headache, 61(8), 1174–1184.

Bennett S.B., Shepherd H. (2022). Nociceptive inputs to the trigeminal complex. The Journal of Headache and Pain, 23(1), 131. https://doi.org/10.1186/s10194-022-01488-7

Sha Z., El Sayed A., Qi C. (2022). Endocrinology of headaches. Expert Review of Endocrinology & Metabolism, 17(3), 195–210.

Van Poppel M.N.M. et al. (2023). Impact of female sex hormones on central pain processing. Neuropsychopharmacology, 45(2), 514–522.

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